Os
Oráculos
Caldeus insistiam sobre a importância que teriam nos ritos
teúrgicos
os chamados "encantamentos bárbaros”, estranhas
palavras de muitas sílabas e origem desconhecida, que foram
se repetindo em todos os ritos mágicos desde o Egito ptolomaico
até os
nossos dias...Segundo Juliano, nem uma só sílaba destas
fórmulas poderia ser mudada, pois possuíam um "poder
inefável". A palavra “abracadabra” cuja vulgarização
se transformou numa brincadeira, já foi um bom exemplo disso.
Plenamente aceite entre os filósofos pagãos, a teurgia foi considerada como uma barreira contra o avanço irresistível
do cristianismo e como algo situado "por cima" da filosofia,
dado que permitia o acesso direto aos deuses.Segundo o neoplatônico
Jâmblico."não é o pensamento que liga os
teurgos aos deuses e a união teúgica pode ser alcançada
unicamente pela eficácia de "atos inefáveis" realizados
de forma correta."
Por
sua vez, Jâmblico (250-330), era sírio e adaptou
a filosofia de Plotino à teurgia Seu livro
mais conhecido, "Os
Mistérios do Egito, escrito em grego, é uma resposta à carta
de Porfírio a Amélio, refutando
as práticas de adivinhação da época.
O livro de Jâmblico reafirma a possibilidade da manipulação
mágica dos deuses em benefício da satisfação
de desejos humanos, valendo-se de uma pressuposta sabedoria caldaico-egípcia,
que se apoiaria na crença de reciprocidade entre a alma humana
e os seres divinos.
A verdade viria dos deuses, mas poderia ser conhecida pelos homens
através da mântica, em todos os seus aspectos: sonhos,
oráculos, geomancia, quiromancia, fisiognomia, etc e etc.
Entretanto, os mistérios do Egito também são
testemunhos do estreito grau de parentesco entre doutrinas caldaicos,
a literatura hermética e o neoplatonismo. Como uma das fontes
de Jâmblico seriam os Oráculos
Caldaicos, que apesar
de redigidos no segundo século de nossa era, eram permeados
por mitos babilônicos arcaicos, associados às teorias
filosóficas calcadas na aparente heliolatria de Zoroastro.
Contudo, enquanto para os neoplatônicos o conhecimento da
divindade é um meio de comunicação com os seres
espirituais, para Jâmblico isso poderia ser conseguido pela
conjuração mágica, embora guiada pela filosofia.
Tal parentesco é notório no “Corpus
Hermeticus",
coletânea de tratados compostos em grego, talvez entre o primeiro
e o fim do terceiro século de nossa era e atribuídos
ao personagem lendário Hermes Trismegisto, nome também
atribuído ao deus Thot, revelador das técnicas e da
escrita. São revelações da sabedoria divina,
nas quais o Cosmo constitui uma unidade, cujas partes são
interdependentes. Contudo, este princípio só se tornaria
operativo e atuante na prática, mediante as sabedorias herméticas,
secretas e sagradas. Evidentemente os tratados herméticos
não são de alquimia, mas estabeleceram, além
de preceitos de conjuração dos deuses em prol da satisfação
de anseios humanos, inclusive imortalidade, uma interpretação
sapiencial das técnicas mágico-míticas egípcias.