Fausto- Marlowe
MAGO INVOCANDO UM DEMÔNIO
Xilografia do "Doutor Fausto", de Christopher Marlowe, edição de 1636

TEURGIA II

Os Oráculos Caldeus insistiam sobre a importância que teriam nos ritos teúrgicos os chamados "encantamentos bárbaros”, estranhas palavras de muitas sílabas e origem desconhecida, que foram se repetindo em todos os ritos mágicos desde o Egito ptolomaico até os nossos dias...Segundo Juliano, nem uma só sílaba destas fórmulas poderia ser mudada, pois possuíam um "poder inefável". A palavra “abracadabra” cuja vulgarização se transformou numa brincadeira, já foi um bom exemplo disso.

Plenamente aceite entre os filósofos pagãos, a teurgia foi considerada como uma barreira contra o avanço irresistível do cristianismo e como algo situado "por cima" da filosofia, dado que permitia o acesso direto aos deuses.Segundo o neoplatônico Jâmblico."não é o pensamento que liga os teurgos aos deuses e a união teúgica pode ser alcançada unicamente pela eficácia de "atos inefáveis" realizados de forma correta."

Por sua vez, Jâmblico (250-330), era sírio e adaptou a filosofia de Plotino à teurgia Seu livro mais conhecido, "Os Mistérios do Egito, escrito em grego, é uma resposta à carta de Porfírio a Amélio, refutando as práticas de adivinhação da época. O livro de Jâmblico reafirma a possibilidade da manipulação mágica dos deuses em benefício da satisfação de desejos humanos, valendo-se de uma pressuposta sabedoria caldaico-egípcia, que se apoiaria na crença de reciprocidade entre a alma humana e os seres divinos.
A verdade viria dos deuses, mas poderia ser conhecida pelos homens através da mântica, em todos os seus aspectos: sonhos, oráculos, geomancia, quiromancia, fisiognomia, etc e etc.

Entretanto, os mistérios do Egito também são testemunhos do estreito grau de parentesco entre doutrinas caldaicos, a literatura hermética e o neoplatonismo. Como uma das fontes de Jâmblico seriam os Oráculos Caldaicos, que apesar de redigidos no segundo século de nossa era, eram permeados por mitos babilônicos arcaicos, associados às teorias filosóficas calcadas na aparente heliolatria de Zoroastro.

Contudo, enquanto para os neoplatônicos o conhecimento da divindade é um meio de comunicação com os seres espirituais, para Jâmblico isso poderia ser conseguido pela conjuração mágica, embora guiada pela filosofia.

Tal parentesco é notório no “Corpus Hermeticus", coletânea de tratados compostos em grego, talvez entre o primeiro e o fim do terceiro século de nossa era e atribuídos ao personagem lendário Hermes Trismegisto, nome também atribuído ao deus Thot, revelador das técnicas e da escrita. São revelações da sabedoria divina, nas quais o Cosmo constitui uma unidade, cujas partes são interdependentes. Contudo, este princípio só se tornaria operativo e atuante na prática, mediante as sabedorias herméticas, secretas e sagradas. Evidentemente os tratados herméticos não são de alquimia, mas estabeleceram, além de preceitos de conjuração dos deuses em prol da satisfação de anseios humanos, inclusive imortalidade, uma interpretação sapiencial das técnicas mágico-míticas egípcias.

©Sister Tweety

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